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2 de Abril: Por que não queremos parabéns, exigimos políticas públicas

✍️ Amábile Marchi
Professora Amábile Marchi liderando caminhada pelos direitos das pessoas autistas no Parque Barigui

No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, a Professora Amábile Marchi denuncia o capacitismo disfarçado de inclusão e aponta os caminhos reais para garantir os direitos das pessoas autistas no Paraná e no Brasil.

Todo dia 2 de abril, o roteiro se repete com uma precisão que chega a ser irônica. Monumentos são iluminados de azul, empresas mudam suas fotos de perfil nas redes sociais e políticos correm para publicar mensagens exaltando os “anjos azuis” e a “superação” das famílias atípicas.

Como mãe de dois filhos autistas — um deles um adolescente de 16 anos, cheio de sonhos, como tirar sua CNH —, e como professora da rede pública estadual há mais de uma década, eu sinto o dever de dizer a verdade inconveniente que muitas famílias engolem em silêncio: nós estamos exaustas de conscientização sem ação.

O Dia Mundial de Conscientização do Autismo é importante para combater o preconceito e a desinformação. Mas a “conscientização” que se encerra no dia 3 de abril é apenas um verniz. Ela serve para aliviar a consciência de uma sociedade que, estruturalmente, continua desenhada para excluir quem não se encaixa no padrão de “produtividade” que o mercado exige.

O Capacitismo Disfarçado de Amor

O maior inimigo da inclusão hoje não é apenas a rejeição aberta; é o capacitismo travestido de caridade.

É o discurso que chama nossos filhos de “anjos” para justificar a falta de investimento em ciência, terapias baseadas em evidências e infraestrutura. Anjos não precisam de Fonoaudiologia pelo SUS. Anjos não precisam de Profissionais de Apoio (mediadores) capacitados na sala de aula. Anjos não envelhecem e não precisam de políticas de inserção no mercado de trabalho.

Mas nossos filhos são humanos. Eles crescem, viram adolescentes e adultos (uma fase do autismo frequentemente invisibilizada). Eles têm direitos constitucionais que estão sendo violados diariamente.

Quem Paga o Preço na Fila do SUS e na Escola

Quando o governo estadual do Paraná precariza a escola pública e tenta empurrar projetos de privatização disfarçados de “parceria” (como o Parceiro da Escola), quem é o primeiro a ser deixado para trás? É o aluno com deficiência. Na lógica do lucro empresarial, a inclusão verdadeira, que exige investimento em profissionais e adaptação de materiais, é vista como “custo”.

Quando o Sistema Único de Saúde (SUS) é asfixiado por cortes de verbas, quem paga o preço? É a mãe trabalhadora que passa meses na fila de espera por um diagnóstico ou por uma vaga na terapia ocupacional, adoecendo de ansiedade e sobrecarga, enquanto vê o tempo precioso de intervenção precoce do seu filho escorrer pelos dedos.

A falta de Estado não é um “acidente de gestão”; é uma escolha política que joga o peso do cuidado exclusivamente nas costas das mulheres.

De Objeto de Caridade a Sujeito de Direitos

Nós, na UPPA (União Paranaense de Pessoas Autistas), e em tantos outros movimentos pelo Brasil, não aceitamos mais o lugar de pedintes.

Neste 2 de Abril, o que exigimos não são balões azuis ou tapinhas nas costas. Nós exigimos:

✊ Fim do sucateamento da Educação Pública

Concursos públicos para mediadores escolares capacitados e valorização dos professores, garantindo que o Plano de Ensino Individualizado (PEI) saia do papel.

🏥 Expansão da Rede de Cuidados no SUS

Centros de referência para diagnóstico e intervenção precoce, com equipes multidisciplinares em todas as regiões, e não apenas nas capitais.

👔 Políticas para Autistas Adultos

Programas reais de capacitação, moradia assistida e inserção no mercado de trabalho, respeitando a neurodiversidade e os talentos únicos de cada indivíduo.

💜 Apoio às Mães e Cuidadores

Políticas de saúde mental e amparo social para as mulheres que carregam o trabalho invisível do cuidado.


O autismo não é uma doença a ser curada; é uma variação neurológica natural humana. A verdadeira “doença” que precisamos curar é a de uma sociedade que só valoriza o ser humano pelo lucro que ele pode gerar.

Nossa luta não termina hoje. Ela apenas ganha os holofotes. E nós usaremos essa luz para iluminar as falhas do sistema e exigir que a inclusão seja a regra, não a exceção.


Um abraço de luta,

Professora Amábile Marchi
Presidente da UPPA - União Paranaense de Pessoas Autistas


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