8 de Março: Entre o luto e a urgência de lutar
Neste 8 de Março, a Professora Amábile Marchi reflete sobre a epidemia de feminicídios e a luta invisível das mães atípicas por políticas públicas.
Todo dia 8 de março, o comércio se enfeita para nos vender presentes e ouvimos discursos dizendo o quanto as mulheres são “fortes” e “multifuncionais”. Mas, na vida real, a gente sabe que essa conversa bonita esconde uma rotina de muita dor, cobrança e exaustão.
Neste ano, o Dia da Mulher não é dia de festa. Nós estamos de luto. E faremos luta!
Os recentes casos de feminicídio, que tiraram a vida de tantas de nós de forma covarde, nos lembram da urgência do nosso grito: nós exigimos o direito de continuar vivas. O feminicídio não é um “descontrole” ou um “acidente passional”. Ele acontece porque ainda vivemos numa cultura que ensina aos homens que o nosso corpo e a nossa vida pertencem a eles. E porque falta um Estado que nos proteja antes que o pior aconteça.
A violência que não deixa marcas roxas
Nós precisamos falar também de uma outra violência. Uma violência silenciosa, que não sai nas notícias policiais, mas que esmaga a vida de milhões de mulheres todos os dias: a desigualdade no nosso suor e no nosso tempo.
Trabalhamos fora, pegamos ônibus lotado, ganhamos salários menores que os dos homens para fazer o mesmo serviço e, quando chegamos em casa, o nosso “segundo turno” começa. É a louça, é a janta, é o cuidado com quem está doente, é a casa para limpar.
A sociedade nos cobra que sejamos excelentes profissionais no mercado de trabalho, como se não tivéssemos uma casa para cuidar. E, ao mesmo tempo, nos cobra que a casa esteja perfeita e a família amparada, como se a gente não precisasse trabalhar fora. É uma conta que não fecha. E quem paga o preço é a nossa saúde física e mental.
O peso invisível do cuidado
Para quem é mãe, e especialmente para as mães atípicas, essa carga é multiplicada por mil. Vivemos em um sistema que joga o cuidado nas nossas costas e lava as mãos.
Quando o governo corta verbas do SUS e a fila por uma terapia demora meses (ou anos), é a mãe quem adoece de angústia tentando ajudar o filho em casa.
Quando a escola pública não tem um mediador contratado para o aluno autista, é a mãe quem tem que largar o emprego para cuidar da criança que não pode ir à aula.
Eles nos chamam de “guerreiras” para disfarçar o abandono do Estado. Mas o amor materno não substitui política pública. O amor não contrata psicólogo, nem paga as contas no fim do mês.
O direito ao tempo livre
Seja você uma mãe que não dorme, uma jovem que rala para pagar a faculdade, ou uma mulher que escolheu não ter filhos mas carrega nas costas o cuidado dos pais idosos: o que eles estão roubando de nós é o nosso tempo.
O tempo livre, o tempo para descansar, para ler um livro, para fazer política, para se organizar no bairro ou no sindicato, é um “luxo” negado à maioria das mulheres trabalhadoras. A nossa exaustão interessa aos poderosos, porque uma mulher cansada e isolada dentro de casa não tem forças para ir à rua mudar o sistema que a oprime.
Nossas reivindicações
Nós não queremos apenas flores. Nós queremos:
- ✊ O fim da violência que nos mata
- 🏫 Escolas em tempo integral para nossos filhos
- 👶 Creches públicas de qualidade
- 🏥 Um SUS forte para dividir conosco o peso do cuidado
- 💰 Salários iguais para trabalho igual
- ⏰ O direito sagrado de ter tempo para viver, e não apenas para sobreviver
Não me conformo, não me calo
Neste 8 de Março, eu não me conformo e não me calo. Sei que a nossa participação na sociedade é cheia de barreiras, mas é só através da organização e da luta política, unindo as nossas vozes, que vamos virar esse jogo.
A nossa luta é pela vida. E a vida tem que valer a pena para todas nós!
Um abraço fraterno,
Professora Amábile Marchi
Presidente da UPPA - União Paranaense de Pessoas Autistas
Vice-Presidente do PCdoB Paraná
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