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Por Que o Diagnóstico Precoce de Autismo Não Pode Esperar?

✍️ Amábile Marchi

Crianças no Paraná esperam até 2 anos por avaliação no SUS. Meninas são subdiagnosticadas. Adultos descobrem tarde demais. Entenda por que a luta pelo diagnóstico precoce é urgente e como garantir seus direitos.

Como mãe de duas crianças autistas e presidente da UPPA, aprendi na prática que o diagnóstico precoce é o primeiro direito — e o mais negado às famílias paranaenses.

Não é exagero. Não é drama. É a realidade de milhares de famílias que batem na porta do SUS e ouvem: “Espera. Ele é só distraído. Ela é só tímida. Volta daqui 2 anos.”

E enquanto esperam, a janela de intervenção se fecha. As terapias que poderiam transformar a vida dessas crianças ficam inacessíveis. O direito à educação inclusiva vira uma luta judicial.

Por Que Escrevo Sobre Isso?

Porque vivi isso. Porque vi meus filhos esperarem meses por uma consulta. Porque conversei com mais de 700 famílias na UPPA que passam pela mesma angústia.

E porque sei que o conhecimento é a nossa melhor arma. Se você reconhecer os sinais, souber o que exigir e conhecer seus direitos, você encurta essa espera. Você muda o futuro do seu filho.


🔍 Diagnóstico Precoce: A Porta de Entrada para os Direitos

Por Que Tão Cedo?

A neurociência é clara: quanto antes o diagnóstico, maiores as chances de desenvolvimento. O cérebro infantil tem uma plasticidade incrível nos primeiros anos de vida. As terapias (fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia) aproveitam essa janela para construir habilidades sociais, de comunicação e autonomia.

Mas no Paraná, a fila de espera para um neuropediatra no SUS chega a 2 anos. Duas. Anos.

Enquanto isso, a criança perde o tempo mais valioso de intervenção. E a família fica sem saber como ajudar.

Sintomas que Não Podem Ser Ignorados

Os sinais aparecem cedo — muitas vezes antes dos 3 anos. Fique atenta se seu filho apresenta:

  • Pouco ou nenhum contato visual (não olha nos olhos quando você fala)
  • Atraso na fala (não fala palavras simples aos 2 anos, não forma frases aos 3)
  • Comportamentos repetitivos (balança o corpo, gira objetos, alinha brinquedos obsessivamente)
  • Sensibilidade sensorial (cobre os ouvidos com barulhos, evita texturas, não tolera etiquetas na roupa)
  • Dificuldade em brincar simbolicamente (não faz “faz de conta”, não imita situações do dia a dia)
  • Resistência a mudanças de rotina (crises intensas quando algo sai do previsto)

Importante: Nem toda criança autista apresenta todos os sinais. E nem todo sinal isolado significa autismo. Mas se você reconhece vários desses comportamentos, não espere. Procure avaliação.

Como Garantir o Diagnóstico no SUS?

Você tem direito a avaliação multidisciplinar gratuita. Aqui está o caminho:

  1. Vá à Unidade Básica de Saúde (UBS) e peça encaminhamento para neuropediatra ou psiquiatra infantil.
  2. Exija protocolo de atendimento (número de protocolo do pedido). Isso documenta sua solicitação.
  3. Se a fila for longa demais, procure a Ouvidoria do SUS (Disque 136) ou a Defensoria Pública.
  4. Enquanto espera, busque apoio em ONGs como a UPPA, que oferece orientação e, às vezes, parceria com universidades para atendimento gratuito.

Lembre-se: Diagnóstico precoce não é favor. É direito garantido pela Lei Berenice Piana (12.764/2012).


👧 Autismo em Meninas: O Diagnóstico Invisível

Por Que Meninas São Ignoradas?

Aqui está um dado que revolta: meninas autistas são diagnosticadas, em média, 1,5 anos mais tarde que meninos. Em alguns casos, só na adolescência ou vida adulta.

Por quê? Porque os critérios diagnósticos foram desenvolvidos com base em estudos feitos majoritariamente com meninos. E porque meninas autistas desenvolvem uma habilidade chamada “mascaramento social” (masking): elas imitam comportamentos de colegas, forçam contato visual, escondem estereotipias.

Por fora, parecem “só tímidas” ou “quietinhas”. Por dentro, estão exaustas. E sem diagnóstico, ficam sem apoio.

Sinais de Autismo em Meninas

Se você é mãe de uma menina, fique atenta a:

  • 🎭 Imitação excessiva (copia colegas sem entender o contexto social)
  • 😔 Ansiedade e depressão precoces (muitas meninas autistas desenvolvem transtornos emocionais na adolescência por falta de suporte)
  • 📚 Interesses intensos e específicos (não só dinossauros ou trens — pode ser animais, livros, séries)
  • 🤐 Seletividade extrema (com roupas, comidas, amizades)
  • 😰 Crises após a escola (ficam “comportadas” na aula e explodem em casa)

Se você reconheceu sua filha aqui, procure um profissional que conheça autismo em meninas. Nem todo pediatra ou psicólogo está atualizado sobre isso.


👤 Autismo em Adultos: Direito ao Diagnóstico Tardio

Você Pode Ser Autista e Só Descobrir Aos 30, 40, 50 Anos

E isso é válido. E isso é importante.

Muitos adultos autistas passaram a vida inteira achando que eram “estranhos”, “difíceis”, “antissociais”. Receberam diagnósticos errados de depressão, ansiedade, transtorno de personalidade. Lutaram sozinhos.

Até que, ao ver informações sobre autismo (às vezes ao levar um filho para avaliação), pensam: “Isso soa como eu.”

Por Que o Diagnóstico Tardio Importa?

Porque ele explica uma vida inteira de lutas. E porque abre portas para direitos:

  • 🏢 Adaptações no trabalho (direito garantido pela Lei de Cotas — Lei 8.213/91)
  • 🎓 Suporte na educação continuada (se estiver fazendo faculdade, pós-graduação)
  • 💰 Benefícios previdenciários (em casos de autismo severo, direito ao BPC/LOAS)
  • 🧠 Autoconhecimento e autocompaixão (entender por que certas coisas sempre foram difíceis)

Na UPPA, acolhemos dezenas de adultos que chegaram com diagnóstico recente. E a transformação é linda. Eles deixam de se culpar. Eles se organizam. Eles reivindicam.

Como Conseguir Diagnóstico Adulto no SUS?

O caminho é similar ao infantil, mas mais difícil (porque faltam psiquiatras especializados). Aqui está o que você faz:

  1. Procure o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) da sua região.
  2. Peça avaliação psiquiátrica e mencione explicitamente a suspeita de autismo.
  3. Reúna evidências da infância (relatórios escolares antigos, fotos, relatos de familiares).
  4. Se o SUS não oferecer, busque grupos de apoio (a UPPA pode indicar profissionais que atendem a preço social).

Você não é “velho demais” para ter direitos.


🧩 Autismo e TDAH: Comorbidades que o SUS Precisa Reconhecer

O Que Muita Gente Não Sabe

Até 70% das crianças autistas também têm TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). E até 30-50% têm ansiedade. Mas o SUS, muitas vezes, trata tudo separado.

Resultado: a criança faz fono para autismo, mas ninguém olha para a hiperatividade. Ou toma remédio para TDAH, mas ninguém trabalha as dificuldades sociais do autismo.

Sintomas de Autismo e TDAH Juntos

  • Hiperatividade extrema (não para quieto, escala móveis, corre sem parar)
  • 🧠 Desatenção severa (não termina atividades, perde objetos, esquece instruções)
  • 😡 Dificuldade de autorregulação (explosões emocionais frequentes e intensas)
  • 🎯 Foco intenso em interesses restritos, mas desatenção total em tudo mais

O Que as Famílias Precisam Exigir

Você tem direito a uma equipe multidisciplinar que avalie a criança como um todo:

  • Neuropediatra ou psiquiatra
  • Fonoaudiólogo
  • Terapeuta ocupacional
  • Psicólogo
  • Pedagogo (para adaptações escolares)

E se o diagnóstico for de autismo + TDAH, o tratamento precisa ser integrado. Isso é garantido por lei.


🩺 Se Você Reconheceu Esses Sintomas: O Que Fazer Agora?

1. Não Entre em Pânico. Entre em Ação.

Diagnóstico de autismo não é sentença. É informação. E informação gera direitos.

2. Procure Avaliação Imediatamente

Quanto antes, melhor. Se o SUS está demorando, não fique parada:

  • Procure universidades que oferecem atendimento gratuito (UFPR, PUC-PR têm clínicas-escola)
  • Junte-se à UPPA e peça orientação
  • Se necessário, busque a Defensoria Pública para entrar com ação judicial (sim, você pode exigir atendimento rápido judicialmente)

3. Documente Tudo

Guarde:

  • Protocolos de atendimento
  • Relatórios médicos
  • Registros de terapias negadas
  • Prints de conversas com o SUS

Isso será sua munição se precisar brigar por direitos.

4. Você Não Está Sozinha

Na UPPA, 700 famílias se apoiam. Grupos de WhatsApp, encontros mensais, orientação jurídica gratuita. A dor de uma mãe não pode ser solitária.


💪 A Luta Continua — E Você Faz Parte Dela

Escrevi este artigo porque conhecimento é poder. E porque sei que você, que leu até aqui, está buscando respostas.

Seja para seu filho. Seja para você mesma. Seja para um aluno que você quer ajudar.

O diagnóstico precoce não pode esperar. Ele é a porta de entrada para terapias, educação inclusiva, medicação (quando necessária), e, acima de tudo, dignidade.

E é por isso que luto. No dia a dia da UPPA. Na sala de aula. E agora, na política.

Porque educação, saúde e dignidade não são favores. São direitos.


📞 Precisa de Ajuda?


Amábile Marchi
Mãe de duas crianças autistas | Professora da Rede Pública | Presidente da UPPA
Porque a luta de uma não pode ser solitária. E o direito de todas não pode esperar.

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